A Revolta dos Malês - Os escravos muçulmanos no Brasil

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A Revolta dos Malês foi a tentativa dos africanos muçulmanos de conquistar a cidade de Salvador, na Bahia, no ano de 1835. Tencionavam matar todos os brancos, africanos que não eram muçulmanos e os mestiços, poupando somente os mulatos para serem escravos. Uma africana soube do plano e contou a um juiz, a insurreição foi abortada, porém, alguns africanos se rebelaram e a tentativa de conquista, transformou-se em revolta.

Antes de iniciar a saga dos africanos muçulmanos no Brasil, é preciso entender que para os europeus, negro queria dizer africano e crioulo eram os afrodescendentes nascidos na América. Os mestiços tinham categorias: mamelucos (filho (a) de branco e índia e vice-versa), mulato (filho (a) de branco e negra e vice-versa) e cafuzos (filho (a) de negro e índia e vice-versa).

Os africanos escravizados no inicio do século XIX eram vitimas da guerra étnica que ocorreu na África. Os escravos de origem bantos eram fetichistas e adaptaram sua cultura com a religião católica. Os escravos de origem muçulmana não aceitavam outra religião, os católicos e os africanos bantos eram tidos como infiéis.

Alguns africanos escravizados, conseguiam sua liberdade ao chegar no Brasil. Os africanos livres muçulmanos não se misturavam com os demais africanos livres, eram mais fortes e alfabetizados no árabe. Difundiam o islã através do Alcorão. Esses africanos passaram a serem chamados de malês pelos brasileiros.

Os africanos muçulmanos eram na grande maioria soldados de guerra que foram capturados por tribos inimigas e vendidos aos portugueses como escravos. Alguns eram mestre na arte da guerra. Os escravos africanos muçulmanos quando chegavam na Bahia, encontravam com seus companheiros de guerra que haviam sidos capturados anteriormente. Alguns livres, sobrevivendo entre os libertos e outros escravizados, de onde acabavam fugindo e formando quilombos.

No inicio do século XIX a África foi assolada por uma guerra étnica que fora incentivada pelos europeus. No atual país da Nigéria, a nação Haussá controlava o norte do país e a nação Ioruba o restante do país nigeriano. Os haussás sofreram influências da nação Fulá, que eram mçulmanos e converteram-se ao islã. Os fulás pertenciam a uma vasta família que controlava toda região ao sul do deserto do Saará.

Os haussás entraram em guerra contra os "infiéis" iorubas entre os anos de 1802 a 1810, os iorubas perderam a guerra e teve parte da nação vendida como escrava no período. Todo território dos iorubas foram anexados ao império dos haussás e surgiu o imperio Sókotô. Depois de conquistar os iorubas, o império Sókotô se desfragmentou e surgiram três impérios vassalos: Wurnô, Gandô e Adamauhá. Novas guerras foram surgindo, e impérios foram caindo. Os destinos dos prisioneiros de guerra era a escravidão nos canaviais da Bahia.

Os europeus chamavam todos os africanos da região do conflito de sudaneses ou nagôs. Os haussás e alguns nagôs eram mulçumanos, quando chegavam ao Brasil não se misturavam com os outros africanos e nem com os afrodescendentes. Os mulçumanos livres sempre se encontravam nos portos pra indentificar os novos escravos, se algum haussá ou nagô  fosse reconhecido, era imediatamente informado que não estava só.

Os africanos muçulmanos prepararam os planos para a insurreição de 1813, conhecida como Insurreição Haussá. O objetivo principal era conquista a cidade de Salvador, matando todos os brancos, mestiços e africanos não muçulmanos. Os mulatos seriam feitos escravos e os lideres formariam um governo muçulmano controlado por africanos.

Insurreição de 1807

Africanos livres da nação haussá que viviam em Salvador se organizaram e prepararam um levante contra as autoridades da cidade. Aos poucos foram montando um arsenal de guerra. A intenção era assassinar todos os brasileiros brancos, mestiços e afrodescendentes, iriam escravizar os africanos que não fossem muçulmanos e criar um império.

No dia 26 de maio, segundo Nina Rodrigues, no livro Os africanos no Brasil, um escravo confiou o plano a seu dono; o Conde da Ponte. O presidente da província da Bahia, Visconde de Anadia, foi comunicado e na manhã do dia 27 de maio, os capitões do mato e a tropa real invadiram diversos casebres de africanos libertos.

A liderança do levante foi pega de surpresa, foram presos setes dos lideres com "cerca de 400 flechas, um molhos de varas para arcos, meadas de cordel, facas, pistolas e um tambor". Anadia decretou que todo escravo que fosse encontrado nas ruas após às 21h, sem a companhia de seu dono, fosse preso com pena de cem açoites em praça pública.

No dia 20 de março de 1808, dos sete lideres; dois foram condenados à morte, um de nome Antonio e o outro Baltasar. Os demais foram açoitados em praça pública. O levante terminou sem ao menos começar.

Insurreição de 1809

No dia 26 de dezembro de 1808, um grupo de escravos haussás e nagôs uniram-se e fugiram dos engenhos do Recôncavo. No inicio de 1809, fundaram um quilombo e para sobreviver cometiam "toda a sorte de atentados, assassinatos, roubos, incêndios e depredações" contra os engenhos e fazendas da região.

A população livre ficou atemorizada. Geralmente quando os quilombolas invadiam um engenho, matavam os feitores e senhores de engenho com toda a sua família. Depois libertavam os escravos, matando os que não fugissem e queimavam a propriedade e o canavial.

A tropa real foi enviada para conter os quilombolas, alcançando-os "a nove léguas" do Recôncavo. Houve uma sangrenta batalha e os quilombolas foram massacrados. A tropa aprisionou oitenta escravos fugitivos, alguns gravemente feridos. Os quilombolas foram facilmente vencidos, mas os haussás e nagôs uniram-se no Brasil, mesmo sendo inimigos de guerra na África. O islã foi responsável pela união.

O levante não foi levado a sério pelas autoridades baianas, para eles eram apenas um grupo de escravos fugitivos que pertubavam a ordem cometendo crimes. Segundo Nina Rodrigues, "uma poderosa sociedade secreta, obgoni ou ohogbo, verdadeira instituição maçônica, governava os povos iorubanos".

 Insurreição Haussá de 1813

Ocorreu uma fuga em massa de escravos das propriedades de Manuel Inácio da Cunha Meneses e de João Vaz de Carvalho e de outros fazendeiros vizinhos. Cerca de 600 escravos haussás armados atacaram o povoado de Itapuã, assassinando os brancos que encontravam no caminho, "treze pessoas brancas foram encontradas assassinadas pelos negros em Itapuã e na Armação de Manuel Inácio, além de oito gravemente ferido".

Os haussás queriam tomar a Casa de Pólvora de Matatu, na véspera da festa de São João, na intenção de armar-se para invadir Salvador. O governador foi avisado e proibiu o uso de fogos de artifícios durante a festa de São João. Durante as investigações, chegou-se aos nomes dos lideres e trinta e nove réus foram condenados.

Mais uma vez a insurreição foi contida sem ao menos começar. Dos condenados; doze morreram na cadeia, quatro foram enforcados e os demais açoitados em praça pública, e posteriormente degredados pra Moçambique, Benguela e Angola pra sempre. Alguns foram entregues aos seus donos depois de implorarem por clemência.

Porém, o número de africanos haussás e nagôs não paravam de chegar a Salvador. Todos os escravos eram prisioneiros da guerra civil que assolava a África subsaariana, sendo que alguns eram mestre na arte da guerra. Era só uma questão de tempo pra que uma mega insurreição escrava acontecesse.

Insurreições de 1826, 1827 e 1830

Entre os anos de 1802-1810, desembarcaram de forma oficial nos portos brasileiros 68 navios da África Setentrional com um total de 17.691 escravos de origem nagô. Da África Meridional chegaram 69 navios com 20.841 escravos de origem banto. Sabe-se que o número de escravos que desembarcaram de forma clandestina, era igual ou superior ao oficial.

A guerra étnica africana se espalhou da Nigéria após 1810, atingindo os atuais países: Angola, Congo, Gabão e Camarões. A pratica de capturar prisioneiros de guerra e vende-los como escravos, tornou a escravidão uma atividade altamente lucrativa. Impérios surgiram e foram conquistados, e as sucessivas guerras abasteceu o Brasil por décadas com os escravos africanos.

Quando esses escravos chegavam ao Brasil, encontravam antigos combatentes vivendo no país. Alguns livres e outros escravizados. A tortura física e psicológica em que passavam os africanos entre a captura na África e a venda no Brasil, logo desaparecia quando encontravam com seus iguais. Descobriam que o inimigo eram os portugueses, e a união entre os haussás e nagôs tornou-se espontânea, ambas nações era de maioria muçulmana.

Após a insurreição haussá de 1813, os africanos muçulmanos foram se organizando. Africanos fugitivos criaram o quilombo do Urubu, em Pirajá. A lider do quilombo era a africana de nome Zeferina. No ano de 1826, os nagôs entraram em contato com o quilombo do Urubu e propuseram uma aliança. O plano era tomar de assalto à cidade de Salvador na véspera de natal.

No entanto, no dia 17 de dezembro de 1826, um grupo formado por capitães do mato foi a Pirajá, na intenção de capturar escravos fugitivos e destruir o quilombo do Urubu. Os capitães do mato desconheciam que os quilombolas estavam se preparando para uma guerra e achavam que não encontrariam resistência. Quando chegaram no local foram surpreendidos e massacrados.

Os sobreviventes escaparam se embreando na mata, os quilombolas foram atrás deles e atacavam todos pelos caminho, "deixando em estado grave uma mulatinha, um capitão do mato e outras pessoas". Entusiasmados pelo sucesso do ataque, os quilombolas resolveram antecipar o ataque, sem avisar os muçulmanos que planejavam o ataque no natal.

A polícia de Pirajá soube do ataque quilombola contra os capitães do mato e no mesmo dia reuniu cerca de vinte homens e fotram até o quilombo do Urubu. Ocorreu uma batalha sangrenta no local, muitos quilombolas morreram e os sobreviventes foram capturados e escravizados.

Entre os capturados estava a líder Zeferina, que confessou o ataque aos capitães do mato, alegando legitima defesa. Zeferina contou também que tencionavam atacar à cidade de Salvador no natal com ajuda do malês. As autoridades não deu importância, não passava pela mente deles que os africanos podessem atacar a capital.

No dia 22 de abril de 1827, escravos muçulmanos do engenho Vitória, próximo a Cachoeira, provocaram uma rebelião nos engenhos do Recôncavo. Foram precisos dois dias de intenso combate para conter a rebelião. A polícia permanente obteve êxito e os rebelados foram mortos e os sobreviventes punidos.

Porém, quase um mês depois, no dia 11 de março de 1827, nova insurreição escrava aconteceu em salvador. Um grupo de africanos escravizados escaparam de um armazém e foram até o engenho do Cabrito e libertaram todos os escravos. O 2º Batalhão de Pirajá foi acionado e atacou os africanos. Muitos morreram e os sobreviventes foram punidos.

Os africanos continuavam se organizando, e no dia 01 de abril de 1830, cerca de vinte escravos africanos nagôs "atacaram três lojas de ferragens na cidade baixa com fim de se apoderarem de armamento". Depois de armados, foram até "os armazéns de negros novos de Vesceslau Miguel de Almeida" e libertaram mais de cem africanos, matando os que não queriam fugir.

Em seguida foram atacar a guarda policial, que contava com apenas oito homens, e mataram um policial. A polícia recebeu reforços e conseguiram repelir o ataque dos africanos. Que "foram destroçados e dispersos, morrendo mais de 50 e ficando prisioneiro mais de 40. Muitos, porém, dispersaram-se pelos matos de São Gonçalo e Outeiro.".

Nos anos que se seguiram, os africanos haussás e nagôs foram se organizando. Tinham seus próprios lugares de encontro, em geral na casa de algum africano muçulmano liberto. Os malês consideravam os africanos bantos fetichistas, e não se misturavam com outros africanos que não fosse muçulmano.

Entre os malês, somente os haussás sabiam ler e escrever em árabe, os mestres eram chamados alufás, na época, o alufá mais conhecido da Bahia era o africano Sanin; batizado Luís, já o mais venerado era o alufá Licutan; batizado Pacífico. Licutan era alfabetizado no árabe e ensinava o islã aos demais africanos.

A grande insurreição de 1935 

O alufá Sanin, pregava na casa dos nagôs libertos Belchior e Gaspar da Silva Cunha, na Rua da Oração. As reuniões muçulmanas eram realizadas na casa dos nagôs libertos Manuel Calafate e Arpígio, na ladeira da Praça, na loja do segundo sobrado e também na casa do haussá liberto Elesbão do Carmo, conhecido como Dandará, a casa ficava "no Beco de Mata-Porcos".

No ano de 1835, o alufá mais importante para os africanos muçulmanos era o Licutan. Era escravo do Dr. Varela, e costumava pregar o islã nas lojas da casa do seu senhor, no Cruzeiro de São Francisco. Licutan sabia ler e escrever em árabe, "reunia os patrícios nagôs e levava-os para seu quarto".

Dr. Varela contraiu dividas junto aos frades carmelitas, não pagou e teve seu escravo Licutan empenhorado, que acabou preso na cadeia de Ajuda. Todos os dias Licutan recebia visitas dos nagôs, que não se conformavam com a prisão de seu principal alufá.

Os nagôs conseguiram arrecadar o dinheiro para pagar a fiança de Licutan, porém, as autoridades não aceitaram o dinheiro e o manteve preso. Os nagôs se revoltaram e prometeram libertar Licutan a força após o ramadã. Já havia décadas que os africanos muçulmanos tencionavam tomar de assalto a cidade de Salvador, a negativa de libertação do alufá Licutan, mesmo pagando a fiança foi o estopim necessário para a revolta muçulmana.

No dia 24 de janeiro de 1835, "os combativos malês decidiram tomar o poder na última noite do nono mês islâmico, dedicado ao jejum diário, Laila-al-Qadr". A reunião foi marcada na casa dos libertos Calafate e Arpígio. Um grupo de africanos muçulmanos de Santo Amaro também participaria do plano. Estava armado o cenário para a guerra santa.

O plano dos africanos muçulmanos era o mesmo da insurreição haussá de 1813. Tencionavam tomar a cidade de Salvador, matando todos os brancos, mamelucos, afrodescendentes e africanos não muçulmanos que não aderisse o movimento. Poupando somente a vida dos mulatos pra que fossem escravos. Formando um governo muçulmano no Brasil.

No entardecer do dia 24 de janeiro de 1835, a africana nagô liberta Sabina da Cruz, ao chegar em sua casa após "seu turno" a encontrou toda revirada. Atribuiu a desordem a seu companheiro de nome Saule; batizado Vitório, pois tinha discurtido com ele na parte da manhã. Foi a procura dele na Rua da Guadalupe, na casa de uns africanos libertos, amigo de Saule.

Chegando a casa, Sabina encontrou a africana Edum que lhe confiou o plano da revolta, dizendo que Saule participaria e estava em reunião na casa de Belchior e Arpígio. Sabina apavorou-se e contou o plano a seu amigo, o nagô liberto Domingos Fortunato, companheiro da nagô liberta Guilhermina, que trabalhava para o juiz de paz.

Guilhermina foi até o "juiz de paz do 1º distrito do curato da Sé" e lhe contou o plano da revolta dos malês. O juiz avisou o presidente da província que colocou de prontidão a força do exército e todas as guardas, o responsável pela operação era o "chefe de polícia, dr. Francisco Gonçalves Martins", o visconde de São Lourenço.

Às 23 horas, a polícia cercou a casa de Arpígio e Belchior. O que desconheciam é que cerca de sessenta africanos estavam no local. O inquilino responsável, o "pardo Domingos Marinho de Sá" impôs resistência, os africanos perceberam a movimentação e ficaram de tocaia em um dos cômodos, então a casa foi invadida.

Quando a polícia abriu a porta do cômodo em que estavam os africanos, foram surpreendidos por um tiro de bacamarte. Na sequencia surgiram "60 negros armados de espadas, lanças, pistolas, espingardas, etc., e aos gritos de: mata soldado!". O tenente se feriu e os soldados retrocederam.

O grupo então decidiu antecipar o levante e foi até a cadeia pública em Ajuda, para libertar Licutan. A polícia, ciente do eminente ataque, conteve os africanos que não conseguiram invadir a cadeia. Os africanos foram até o largo do Teatro para comunicar aos outros africanos que o lavante havia sido antecipado. No caminho encontraram "uma força de oito soldados permanentes que sobre eles dera uma descarga".

Entusiasmados, os africanos seguiram em frente e foram até o forte de São Pedro, no quartel da artilharia, matando e ferindo a todos que encontravam no caminho. No quartel travaram uma batalha, um sargento foi ferido, mas como a polícia e o exército já sabia sobre um eventual levante, mais uma vez os africanos não conseguiram invadir.

Decidiram ir para Vitória e se agrupar com outros africanos muçulmanos. Em maior número, foram até o quartel da polícia, "na Mouraria, onde houve forte tiroteio". A polícia fechou o portão e o grupo de africanos não conseguiu invadir, porém, mataram alguns policiais no confronto.

Resolveram tentar invadir a cadeia em Ajuda novamente para libertar o Licutan. Estavam confiantes, pois estavam em maior número em comparação a primeira tentativa de invasão. O chefe de polícia estava em Bonfim e decidiu ir com a cavalaria para Água dos Meninos, a fim de impedir a invasão da cadeia.

Eram três hora da madrugada, a população foi agrupada na igreja do Bonfim e a cavalaria marchou para o quartel e aguardaram os africanos. Um grupo de policiais permanentes foram ao encalço dos africanos, no confronto, os africanos mataram um dos policiais. E "desceram então para a Baixa dos Sapateiros, mataram em caminho mais um pardo, seguiram para os Coqueiros e, saindo em Água dos Meninos, travaram luta com a cavalaria" que já os aguardavam para o confronto.

"Na manhã de 25, que foi um domingo, as ladeiras e becos de Salvador fediam de cadáveres". Centenas de rebeldes africanos foram presos na cadeia pública de Ajuda,  o alufá Licutan, apenas olhava tristemente para seus companheiros muçulmanos que entravam na cadeia e em silêncio fez uma oração.

Na época, a cidade de Salvador contava com uma população de 50 mil habitantes, sendo 14 mil brancos, 25 mil africanos e afrodescendentes e 11 mil mestiços. As autoridades temiam que todos os africanos estivessem envolvidos, desconheciam que os africanos muçulmanos não tinham aliança com outros africanos não-muçulmano. Desconheciam o caráter religioso por trás da revolta.

Durante as investigações, foram encontrados anotações em árabe na casa dos nagôs Belchior e Arpígio. O alufá Sanin, foi condenado ao degredo pra África, mas teve a pena atenuada para 600 açoites em praça pública.  Já o alufá Licutan, mesmo estando preso foi acusado de participação e considerado o líder dos malês. As duas tentativas de invasão a cadeia para libertá-lo foi o suficiente para condená-lo. Teve uma pena de mil açoites e os recebeu.

No total, 234 africanos foram condenados ao trabalho forçado com os pés agrilhoados e açoitados em praça pública, 06 africanos foram condenados ao enforcamento e 33 foram deportados para a África. Terminava assim mais uma insurreição dos africanos muçulmanos, pena capital para os lideres da revolta, trabalho forçado para os afrodescendentes e degredo para os africanos libertos.

A insurreição de 1835, foi diferente das anteriores. A de 1813, foi organizada pelos africanos haussás e tinha um caráter religioso. Os brancos católicos e os afrodescendentes fetichistas, era tido pelos muçulmanos como infiéis. Foram vencidos mais se fortaleceram para as futuras insurreições.

A insurreição de 1826, foi motivada porque o quilombo do Urubu, da líder Zeferina fora atacado e revidaram, massacrando os capitões do mato. No anoitecer do mesmo dia estavam mortos pela polícia e os sobreviventes punidos. Na insurreição de 1830, foi oportunismo dos africanos muçulmanos que se libertaram e se armaram, atacando os armazéns dos escravos e os libertando-os.

Já a insurreição de 1835, foi totalmente diferente das anteriores porque teve um caráter religioso e de indignação por trás da revolta. Motivado pela prisão do principal alufá, que teve o pedido de liberdade negado após os nagôs terem arrecadado o valor da fiança. O ataque seria no fim do ramadã, mais foi descoberto e o levante fora antecipado sem que a maioria dos envolvidos soubesse o que estava acontecendo.

Mesmo que o levante tivesse êxito, os muçulmanos teriam dificuldades em manter um exército. A grande maioria dos africanos livres ou escravos, eram de origem banto; católicos e fetichistas. E os muçulmanos não eram sociais e mantinham distância dos demais africanos, falando apenas no seu diáleto.

Outro problema que teriam seria a falta de apoio politico e militar, os muçulmanos eram desconhecidos no Brasil, que tinha uma população católica, além de uma minoria de maçons. O plano de assassinar todos os brancos, mamelucos, afrodesdendentes e africanos bantos; sem apoio militar não duraria por muito tempo. O isolamento que os muçulmanos mantinham dos demais africanos, os levou a derrota.

Por isso, a insurreição de 1835 dos africanos muçulmanos foi considerada mais uma das revoltas dos escravos ocorrida na Bahia entre 1807 e 1835. Os africanos muçulmanos tinham sua cultura, suas raízes, eram guerreiros e alfabetizados. Porém, estavam em menor número em um país católico, e isso fez a diferença...

Fontes:

Rodrigues, Nina. Os africanos no Brasil; editora Madras. São Paulo, 2008.

Coleção Caros Amigos - Os negros, história dos negros do Brasil. editora Casa Amarela. São Paulo

Coleção Caros Amigos - Rebeldes Brasileiros - Homens e mulheres que desafiaram o poder. editora Casa Amarela. São Paulo. 2000

  

1835, insurreição escrava, muçulmanos no Brasil, Revolta dos Malês

sexta 07 dezembro 2012 01:18



3 comentário(s)

  • Miterio Qui 20 Mar 2014 23:33
    KD OS PARTICIPANTES DA REVOLTA
  • Habib Tamer Badiã mailto Qua 04 Set 2013 03:40
    Muito bom e enfrenta os temas pontificando claramente os fatos e as suas interações!!! Recomendo a leitura!
  • Raquel Santos mailto Sáb 19 Jan 2013 19:37
    Parabéns pelo artigo. Sou historiadora, negra e sentia falta de um blog como o seu na web. Se precisar, pode contar comigo.
    Grande abraço.
    Raquel


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